quarta-feira, 10 de agosto de 2011


            Há quatro milhões de anos, quando o Homo Sapiens estava bem longe de existir, a preocupação dos Homo Afarensis era única e exclusivamente a sobrevivência na natureza selvagem.
            Nós somos mais evoluídos. Usamos esse princípio desde a transição entre a Baixa Idade Média e o início da Idade Moderna para justificar de maneira curta e grossa a cruel dominação das terras e dos povos.
            Ultrapassamos, de uma maneira humana – não cabe aqui dizer “animal” porque não vejo nenhum outro ser vivo ser capaz de tamanhas atrocidades – o limiar entre a sobrevivência e a pura ganância.     
            Dominamos povos que respeitavam o planeta e que lutavam por ele. Que sobreviviam em conjunto. Sabiam que eram inferiores à fúria da natureza e não ousavam desobedecê-la.
            Eles eram homo sapiens sapiens no sentido puro da terminologia. Nós não. É quase impraticável unir espécies tão diferentes em uma única.  Somos homini oeconnomicus, como cunhado por Bauman; vivemos pelo consumo muito mais do que pela própria saúde, como se vê na assombrosa porcentagem de obesos no mundo e principalmente nos Estados Unidos, em que o brasileiro tanto se espelha.
            Estamos sempre insatisfeitos e, em busca da felicidade ilusória, passamos por cima de qualquer obstáculo. Nos achamos donos do mundo. Mudamos o ar, a água, terra, vento, universo. E somos capazes de mais, muito mais. Mas vivemos no medo. Tentamos prever cada passo da natureza para evitar que ela nos domine e que sejamos aniquilados da face da Terra.
            Tudo isso foi necessário. Mostramos do que somos capazes. Mas chegamos ao ponto em que matamos nossa própria espécie não por sobrevivência, mas pelo que já temos: dinheiro, bens de consumo, commodities. Se fosse um miserável lutando por um pedaço de pão, vá lá. Mas bem sabemos que são os mais endinheirados que instigam as batalhas sem nexo e não o contrário.
            É perfeitamente cabível um leão matar o outro por mais comida do que já tem em sua toca, mas não se espera isso de um animal que se diz racional e superior. Que se diz dominante, melhor que tudo e todos.
            Qual, exatamente, é o caminho que a nossa espécie está trilhando? Aonde queremos chegar? Está claro que, ao contrário do que é postulado pela biologia, nós somos bem inferiores.
            Ser mais evoluído não é só ter habilidades incríveis que as espécies anteriores não tinham. É ser capaz de se desenvolver e se multiplicar e sobreviver em parceria com a natureza, respeitando seu espaço e seu poder. Temos uma estrutura corpórea complexamente perfeita. Mas de que adianta isso se não sabemos usá-la para fins benéficos? Pensando a sociedade pós-panóptica, grandes mudanças nesse sentido estão longe de acontecer. 
            É uma pena.